Não há torá sem farinha


Existe um velho ditado hebraico que diz: "Se não há farinha, não há Torá; se não há Torá, não há farinha".

Farinha representa o sustento, os bens materiais e o esforço para se obter o pão nosso de cada dia. Torá são as leis, o conhecimento, o caminho para o entendimento das coisas e a consciência superior.

A farinha pode ser entendida também como a práxis, as nossas ações, as atitudes concretas que deixamos pelo mundo. Torá é a sabedoria expressa por nossas palavras e pela imagem que construímos e defendemos.

Uma pessoa que possui mais sabedoria em seu discurso do que aquela expressa em suas ações, ou seja, mais torá do que farinha, é como uma árvore com galhos numerosos, mas com raízes frágeis onde qualquer vento poderá arrancá-la.

Já uma pessoa que possui ações superiores à sua sabedoria, pode ser comparada a uma árvore com poucos galhos, não tão vistosa, mas que possui inúmeras raízes fortificadas e nenhuma tempestade poderá tirá-la do solo.

Estamos vivendo tempos onde o conhecimento e a sabedoria, mesmo que aparentes, têm sido muito valorizados. Imagens são formadas, mitos são arquitetados, mas as atitudes acabam por não refletir este brilho exterior.

Esperteza e malandragem, travestidas de sabedoria, é como se fossem o deus Hermes, patrono do ilusório e das artimanhas, com as roupas do deus-sol, Apolo, tentando iluminar as multidões.

E do outro lado, milhões de pessoas que conhecem bem o esforço necessário para transformar a farinha em pão, por mais que não reverberem uma imagem reluzente e ilusória, são arvores que apesar de todas as tempestades que enfrentam, continuam firmemente sustentadas por suas ações.

Não há Torá sem farinha. Não há sabedoria sem ética. Não há sucesso sem honestidade e trabalho. Em momentos onde tudo parece ter perdido seus princípios, é possível encontrar conforto e discernimento numa singela metáfora como essa.

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